terça-feira, 6 de junho de 2017

Tempo

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é tudo tão volátil
o tempo tão escasso
feito vento que passa
e nunca mais retorna
uma saudade que amarga
e que amarra a garganta
sem pistas ou respostas
um gelo nos olhos
e faíscas nos lábios
um silêncio nos verbos
e gritos nos versos 
os sentimentos num carrossel
rasurados num papel
uma vontade de ficar
uma necessidade de partir
angústia de viver
medo de morrer
sem os sonhos libertar

quinta-feira, 30 de março de 2017

Glacia


não mais taças de vinho
não mais conversas sem destino
você não acreditaria
mas foi apenas uma vírgula, pobre vírgula
mais finita do que todas as reticências
que faz o grito mudo, o vácuo surdo
algo que dispensa conjecturas
e que deixa para trás tudo o que seria futuro





sábado, 31 de dezembro de 2016

Fiel


às vezes, quando você usa o rímel
os seus olhos se encontram no espelho
os da carne e os da alma
nesse momento, nada que seja exprimível

nenhuma palavra que seja deste mundo
um sentimento meio que confuso
o eu e o eu verdadeiro, mortal e imortal
um breve encontro, de propósito ignorado

um medo inexplicável, constrangimento
consciência do espaço usurpado
o dono legítimo mora silenciosamente
em todos os recantos do avesso

e transpassa todos os limites da matéria
invade suas verdades sem que pudor haja
te conhece mais do que se possa conjecturar
é mais insolente do que a água, é ar

Se, nesse pequeno encontro ao espelho
puder se demorar um pouco mais
sem razão, sem verbo, sem escudo
só você como testemunha de si mesmo

o seu fiel, o seu único e eterno
nesse instante mágico desperto
nessa fenda dos mundos que se abre
vem uma força louca que entorpece, beba-se!



terça-feira, 28 de junho de 2016

Corpo presente


os teus olhos seguram uma tempestade
e eu já não posso te servir de abrigo
também não podemos regressar ao começo
que nenhum de nós já é mais o mesmo

viajar tem esse efeito, metamórfico
gira um botão qualquer dá dentro do peito
a saudade que fica do ponto de partida
é uma vaga lembrança daquela perspectiva

e olha que eu nem fui tão longe assim
nem me demorei tanto como gostaria
é que minha alma foi muito mais além
da estrada que alcançaram os meus pés


terça-feira, 7 de junho de 2016

Silenciês


às vezes eu falo tão alto
dentro de mim
que suspeito que grito

então eu passeio meus olhos marejados
a procura de um flagrante
observador

ninguém, nenhum pescador

perderam todos um poema lírico
que para sempre ficará perdido
foi escrito em silêncio, se foi...

segunda-feira, 28 de março de 2016

Tolo

 
para onde a gente volta
quando tudo está destruído
em que canto eu me abrigo
se o inferno está em mim
se são as paredes do meu coração
que estão em ruína

de onde eu continuo minha poesia
se você arranca do nosso livro
todas as páginas que foram escritas
como sigo em frente
se para onde quer que eu vá
levo esse vazio cheio de mim
 
 


domingo, 13 de março de 2016

Dicotomia

 
 
às vezes acho que meu discernimento
vive no crepúsculo dos argumentos
indeciso entre razão e instinto
ora é o imaginário que abre o vão das cortinas
ora são os fatos tocando alto o som da campainha
quem sabe me dizer onde fica o limiar
o ponto exato onde se colocar uma porta
de onde eu possa ver de um lado a noite
do outro somente o dia
sem o efeito da janela sobre o porão
 sem mais amanheceres e anoiteceres
sem mesclas de luz e escuridão